Lucho
e Rebeca em 1920
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Juanita escreveu esta
carta a seu irmão Lucho quando este soube que
ela ia a entrar no Carmelo.
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Cunaco, 14 de abril de 1919
Meu querido Lucho:
Soube por mamãe que já não te é
desconhecido meu segredo. Perdona-me não ter tido
força de o confiar-te antes: porém, sabia
o muito que te ia impressionar e queria te poupar o mais
possível a tristeza que ias sentir quando estivesses
a par de tudo.
Se por um instante pudesses penetrar no íntimo de
meu pobre coração e presenciar a luta horrível
que experimento ao deixar os seres que idolatro, terias
compaixão de mim. Mas Deus o quer, e, mesmo se fosse
necessário atravessar o fogo, não retrocederia;
pois o que tanto anseio não só proporcionará
a felicidade nesta vida, mas a de uma eternidade.
Creio que tu mais que ninguém poderás compreender
que existe na alma uma sede insacíavel de felicidade.
Não sei por quê, mas em mim a acho duplicada.
Desde criança a tenho buscado, mas em vão,
porque em todas partes só vejo sua sombra. E esta
pode satisfazer-me? Não. Jamais. Parece-me que tenho
me deixado seduzir. Desejo amar, mas algo infinito, [e que]
este Ser que eu ame não mude e seja o joguete de
suas paixões, das circunstâncias do tempo e
da vida. Amar, sim: porém o Ser imutával,
Deus, que tem me amado infinitamente desde a eternidade.
Que abismo há entre esse amor puro, desinteressado
e imutável e o que me pode oferecer um homem! Como
amar um ser tão cheio de misérias e de fraquezas?
Que segurança posso encontrar nesse coração?
Unir minha alma a outro ser que não me aperfeiçoe
com seu amor? Achas que pode apresentar-me nobres perspectivas?
Não. Em Deus encontro tudo o que nas criaturas não
encontro, porque são demasiado pequenas para que
possam saciar as aspirações quase infinitas
de minha alma. Me dirás porém que podes amar
a Deus vivendo no meio dos teus. Não, meu Lucho querido,
N. Senhor nada reservou para Si ao amar-me desde o madeiro
da cruz. Ainda deixou seu Céu, eclipsou sua divindade,
e eu me tenho de entregar pela metade? Acharias generoso
de minha parte reservar-me àqueles a quem estou mais
ligada? Que Lhe ofereceria então? Não. O amor
que Lhe tenho, Lucho querido, está acima de todo
o criado; e mesmo pisoteando meu próprio coração,
despedeçado pela dor, não deixaria de dizer-lhes
adeus, porque o amo com loucura. Se um homem é capaz
de enamorar a uma mulher até o ponto de ela deixar
tudo por ele, não crês acaso que Deus é
capaz de fazer irresistível seu chamamento? Quando
se conhece Deus, quando no silêncio da oração
ilumina o entendimento com sua sabedoria e seu poderio,
quando inflama a vontade com sua bondade e misericórdia,
se olha tudo da terra com tristeza. E a alma, amarrada pelas
exigências de seu corpo, pelas exigências do
ambiente social em que vive, se encontra desterrada e suspira
com ardentes ímpetos por contemplar sem cessar esse
horizonte infinito, que, à medida que se olha, se
alarga sem jamais encontrar limites em Deus.
Lucho querido, se soubesse a
amargura que encontro em tudo o que me rodeia, não
te assombrarias que buscasse as paredes de um convento para
viver e passar minha vida inteira em oração
não interrompida pelo bulício do mundo. Não
podes compreender por enquanto, porém eu rogarei
a Deus para que se manifeste um dia a ua alma, como por
sua infinita bondade se manifestou à minha. Então
verás que é impossível não sofrer
horrivelmente quando a alma se encontra com obstáculos
que a impedem de ficar constantemente na contemplação
amorosa do todo adorado. Vivendo no meio dos meus, isto
é impossível. As preocupações
da vida o impedem, ainda que se tenha a liberdade mais completa.
Lucho tão querido, falo-te de coração
a coração. Nesse instante, experimento toda
a dor da separação. Amo-te como nunca. Poucos
irmãos eistiram tão unidos como nós
dois. Sem dúvida, digo-te adeus. Sim, Lucho de minha
alma. É preciso que eu te diga esta palavra cruel
por um lado, porém não se se considera quando
ela diz: "A Deus". Lucho querido, ali viveremos
sempre unidos. Em Deus te dou eterna morada.
Tua carta que recebi há pouco, quando tinha começado
esta, me tem feito sofrer muito. Acusas-me de falta de confiança,
irmão mais querido. Se eu te disser que muitas vezes
estive a ponto de dizer-te, não me crerás.
Porém me reprimia pelo temor do muito que ias sofrer
e temia por tua saúde. Assim, perdoa-me não
ter tido a força de dizer-te, mas foi por excesso
de carinho.
Lucho, não sabes quanto
te agradeço por teu carinho. Verdadeiramente acho
que não o mereço; porém, crê-me
que eu te quero duplamente. Com delírio. Imagina
que não só deixo a ti mas também os
dois seres que idolatro: meu pai e minha mãe. E sem
dúvida vou deixá-los por Deus. Tenho pensado
muito e refletido, e não quero voltar atrás,
porque sende carmelita realizarei todo o ideal de felicidade
que tenho forjado para mim. Se ficasse no mundo, não
teria todo o bem que tu me dizes, porque a virtude é
uma planta cuja seiva é a graça de Deus. Sem
ela a virtude perece. Diz-me sinceramente, crês que
Deus me ortogará se eu não for fiel em segui-lo?
Se Ele me tem dado já o valor para sacrificar-lhe
tudo por seu amor, eu não devo deixar de ser generosa.
Além disso, que favor maior que o da vocação?
E depois de tanto amor de Deus para com uma criatura miserável
eu ficaria em minha casa, no meio de todos os que amo e
das comodidades? Por um homem a tudo se renuncia, e por
Deus nada se aceita!
Se tu, querido Lucho, tivesses
me visto casar com um jovem bom que não tivesse tido
fortuna e me tivesse levado ao campo longe de todos vocês,
tu te haverias conformado. E porque é por Deus tu
te desesperas? Quem pode me fazer mais feliz que Deus? Nele
tudo encontro. Agora diz-me: que abismo insondável
há entre Deus Todo-poderoso e a criatura? Ele não
se incomoda de descer até ela, para uni-la a Si e
divinizá-la. E eu ei de desdenhar a mão do
Todo-poderoso que em sua grande bondade me detém?
Não. Jamais. Nada pode convencer-me de que meu dever
não é seguir a Deus sacrificando tudo para
pagar-lhe seu infinito amor como melhor possa. O resto será
baixeza de minha parta. Creio que julgarás como eu.
Quanto ao que me dizes, que a glória de Deus não
ganharia nada se todos entrassem nos conventos, te dou razão.
Porém deves acrescentar que nem todos os bons são
chamados por Deus para ser religiosos. Há almas em
quem infunde o atrativo da perfeição, e estas
faltam se não se entregam a ela. É certo no
mundo que se necessita de almas virtuosas, e hoje mais que
nunca é de absoluta necessidade o bom exemplo; porém,
para permanecer no mundo é indispensável ter
especial assistência de Deus. Eu me considero sem
forças para isso, porque Ele não pede. Porém,
a maior é a necessidade de almas entregues completamente
ao serviço de Deus, que o louvem incessantemente
pelas injúrias que no mundo se lhe fazem; almas que
o amem e lhe façam companhia para reparar o abandono
em que o deixam os homens; almas que roguem e clamem perpetuamente
pelos crimes dos peadores; almas que se imolem no silêncio,
sem nenhuma ostentação de glória, no
fundo dos claustros pela humanidade deicida. Sim, Lucho,
a carmelita dá mais glória a Deus que qualquer
apóstolo. Santa Teresa, com sua oração,
salvou mais almas que São Francisco Xavier, e fez
esse apostolado desconhecendo-o. Diz-me que devo empregar
para sua glória as qualidades com que Deus me dotou.
Sim, como me dizes, é certo que as tenho. Como poderei
dar maior glória a Deus senão dando-me inteiramente
a Ele e empregando dia e noite minhas faculdades, tanto
intelectuais como morais, em conhecê-lo e amá-lo?
Não possuo a formosura e se a possuísse não
duvido que a ofereceria também, porque o melhor e
mais formoso é Ele que o merece.
Poderás detestar a religião, Jesus Cristo,
quando é ela, Ele que me proporcionam a felicidade
nesta vida e na outra? Que desespero teria tomado meu coração
ao encontrar o vazio, o nada das criaturas, se não
tivesse conhecido outro Ser capaz de saciar-me e satisfazer-me!
Não. Jamais o crerei, Lucho de minha alma, porque
sei que em tua alma as crenças religiosas descansam
sobre base sólida. E se isto, por desgraça,
chegar a suceder, eu te digo que [desde] este instante conjuro
a Deus para que me mande antes a morte, para que do sacrifício
brote para ti a luz e o amor para com nossa religião.
Além disso, quem pôs em minha alma o germe
da vocação foi a Ssma. Virgem. E tu fostes
aquele que me ensinou a amar a esta terna Mãe, que
jamais tem sido invocada em vão por seus filhos.
Ela me amou, e não encontrando outro tesoro maior
que dar-me em prova de sua singular proteção
deu-me o fruto bendito de suas entranhas, seu Divino Filho.
Que mais poderia me dar?

Lucho ao fim
de sua vida
Lucho, antes de partir, deixo-te
como selo de nossa perpétua fraternidade a estátua
da Ssma. Virgem, que tem sido minha companheira inseparável.
Ela tem sido a confidente íntima desde os mais ternos
anos de minha vida. Tem escutado a relação
de minhas alegrias e tristezas. Tem confortado meu coração
tantas vezes abatido pela dor. Lucho querido, deixo-te para
que me substituas perto de ti. Fala com Ela como fazes comigo,
de coração a coração. Quando
te sentires só, como eu muitas vezes tenho-me sentido,
olha-a e verás que sorrindo te diz: "Tua Mãe
jamais te deixa só." Quando, triste, e desolado,
não tiveres com quem desabafar, corre a sua presença
e o olhar choroso de tua Mãe dirá: "Não
há dor semelhante a minha dor." Ela te confortará,
pondo em tua alma a gota do consolo que cai de seu dolorido
Coração.
Eu, desde minha solitária
cela, rogarei por ti a essa Virgem quase idolatrada, para
que se mostre como verdadeira Mãe com aquele irmão
que tanto amo. Unidos pelo pensamento aqui na terra, nossas
almas irmãs se encontrarão, depois desta existência
dolorosa, um dia reunidas para sempre lá no Céu.
Então compreenderemos o mérito da separação
neste desterro, que nos tem ganhado a comunhão eterna
lá na pátria, onde está a vida verdadeira.
Lucho, só me resta uma coisa a dizer-te. Se me tivesse
enamorado de um jovem com quem cresse ser feliz e não
tivesse sido do teu agrado, não teria duvidado um
momento em sacrificar por ti minha felicidade, porque te
quiero demasiado. Porém, não se tratando de
um homem, mas de Deus, e comprometendo eu não só
a felicidade temporal mas a eterna, não posso voltar
sobre meus passos. Perdoa-me toda a tristeza que com minha
determinação te tenho causado. Tu me conheces
e poderás compreender melhor que ninguém a
dor em que estou submersa, dor tanto maior quanto vejo que
sou eu a causa do sofrimento dos seres que amo tanto.
Deixa-me dizer pela última vez adeus. Escapa de minha
alma um soluço. Adeus, meu irmão tão
querido. Sê bom. Enche tu, com o carinho para com
meus pais, o vazio que vai deixar em seus corações
a oferenda de uma filha que, ainda que pouco valha, é
enfim um pedaço de suas almas. Ama-os e evita-lhes
todos os sofrimentos. Sê bom também com minha
querida Rebeca! Pobrezinha! Quanto sinto deixá-la
abandonada, porque sempre a acompaharei com minhas orações.
Acompanhem-se ambos e ajudem-se mutuamente no caminho do
bem.
Lucho querido, adeus! Tem coração generoso
e oferece-me a teu Deus e à Ssma. Virgem. Eles vão
fazer a felicidade de tua pobre irmã. O bom e formoso
sempre custa lágimas. A vida que abraçarei
tem essas qualidades, porém se compra com o sangue
do coração. Deus te premiará, porque
nunca se deixa vencer em generosidade. Sobretudo pensa que
esta vida é tão curta: já sabes que
esta vida não é a vida.
A Deus, irmão querido.
Te abraça e beija tua Juana, que muito em breve se
chamará Teresa de Jesus.
Juana.
(Carta n°81, tradução
© Edições Loyola)
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